domingo, 18 de outubro de 2015
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013
Risco de ataque cardíaco
Há gente que tem azar. Faz tudo direito e, no fim, dá errado. Isso acontece especialmente com o coração. Você pode achar que está em forma física, muito melhor do que a dos amigos mais novos, e correr risco de um ataque cardíaco (infarto do miocárdio), sem jamais imaginar que isso pudesse acontecer.
Nem todos os que sofrem infarto são classificados pelos médicos como pacientes de alto risco. Mais da metade dos casos acontece entre pessoas portadoras de risco intermediário ou baixo risco.
Por isso, é fundamental que os homens se submetam a avaliações cardiológicas periódicas depois dos quarenta anos de idade, e que as mulheres o façam a partir da fase que precede a menopausa.
David Nash, da Universidade de Nova York, em artigo publicado na revista “Postgraduated Medicine”, explica como essa avaliação deve ser realizada nas consultas médicas de forma tão acessível, que tomo a liberdade de resumi-la aos interessados.
Segundo ele, os exames invasivos, dispendiosos, pirotécnicos, disponíveis apenas em hospitais especializados não são necessários; estão indicados somente em casos especiais. O risco da maioria das pessoas que vai ao médico pode ser avaliado com base na história clínica, exame físico e testes laboratoriais simples, de rotina.
Como os principais fatores de risco cardíaco são cigarro, pressão alta, diabetes, colesterol total alto, LDL elevado e HDL baixo, fica fácil avaliá-los. Basta tirar a história, medir a pressão e fazer um exame de sangue para dosar os níveis de açúcar no sangue (glicemia) e do colesterol e suas frações (HDL e LDL).
O cigarro, além de causar infarto como fator isolado, tem a propriedade de potencializar os demais fatores de risco. Os médicos devem empenhar-se com seriedade para convencer seus pacientes a parar de fumar. Os fumantes que conseguem ficar livre da dependência beneficiam-se dramaticamente: depois de apenas 12 meses sem cigarro, a mortalidade por ataques cardíacos cai aos níveis dos que nunca fumaram.
Da mesma forma, os médicos devem enfatizar o papel da atividade física, do controle da pressão e da taxa de açúcar no sangue dos diabéticos, na prevenção de infartos.
Níveis de colesterol total acima de 240 conferem risco alto de infarto do miocárdio. Por outro lado, 20% dos casos ocorrem em homens com níveis considerados seguros (abaixo de 200). A maioria, porém, desses casos de infarto associados a colesterol total baixo, apresentam níveis baixos da fração HDL (abaixo de 35).
Além desses fatores principais que guardam relação de causa e efeito com a incidência de ataques cardíacos, há seis outros considerados predisponentes à doença, que também são fáceis de identificar: obesidade, vida sedentária, história de infarto prematuro em pessoas da família, sexo masculino, resistência à insulina e os fatores sociais, étnicos ou comportamentais.
Informações sobre sedentarismo, existência de casos na família, sexo e os fatores sociais, étnicos e de comportamento, são rotineiramente obtidos na história clínica.
O autor recomenda que o grau de obesidade, o principal fator predisponente dos seis citados, seja avaliado pela simples medida do diâmetro da cintura e pelo cálculo do índice de massa corpórea.
Homens com mais de 94 cm de cintura e mulheres com mais de 80 cm, precisam perder peso.
O índice de massa corpórea, calculado dividindo-se o peso (em kg) pela altura (em metros) elevada ao quadrado, também serve de orientação. Se o índice for maior do que 25 kg por m², existe sobrepeso.
A resistência à insulina, condição metabólica associada intimamente ao desenvolvimento de diabetes, pode ser avaliada grosseiramente porque guarda relação com o diâmetro da cintura: homens com mais de 100 cm e mulheres com mais de 90 cm apresentam maior probabilidade de apresentar resistência.
Drauzio Varella
As mães do Crack
Difícil avistar um grupo de usuários de crack em que não haja uma menina grávida. Desviamos o olhar para não correr o risco de encontrar o delas, embaçado pela escravidão da dependência.
A razão que as leva a conceber um filho na miséria em que se encontram são óbvias: crack é droga psicoativa de uso compulsivo que destrói o caráter e subjuga o arbítrio. É um experimento macabro da natureza que reduz seres humanos à situação de animais de laboratório, condicionados a buscar, a qualquer preço, a recompensa que a cocaína lhes traz.
Quando o adolescente rouba a aliança de casamento da mãe viúva que pega três conduções para chegar ao trabalho, não é por falta de amor, mas pela necessidade. É a premência incoercível para sentir o baque da cocaína no cérebro, prazer intenso e fugaz como o orgasmo, que o leva a arruinar o futuro pessoal e a infernizar a vida dos familiares. Como bem caracterizou um usuário:
- Doutor, pense no desespero de correr para o banheiro no pior desarranjo intestinal. A compulsão do crack é cem vezes pior.
No caso das meninas dependentes, contingente que aumenta de forma assustadora, as consequências são mais trágicas. Muitas vezes iniciadas antes de chegar à adolescência, são elas as principais vítimas da crueldade das ruas para as quais foram arrastadas.
Às desprovidas de talento e coragem para furtar, assaltar ou pedir esmola, sobra o recurso derradeiro: vender o corpo. A preço vil, porque transitam num ambiente social formado por uma legião de desvalidos que perambula pelas cracolândias sem destino nem banho, para quem sexo não é prazer que chegue aos pés do crack.
No meio desse refugo social, quando conseguem vinte reais por um programa é motivo de festa; caso contrário, aceitam dez, o bastante para uma pedra. Em dias de menos sorte, cobram cinco por uma sessão de sexo oral, provação especialmente dolorosa, quando os lábios estão queimados pelo cachimbo incandescente.
Esse é o cenário de horror em que engravidam.
Sem que tenham consciência de seu estado, as primeiras semanas do desenvolvimento embrionário acontecem sob o impacto da cocaína. Quando descobrem a gravidez, a realidade dificilmente se altera.
Na Penitenciária Feminina, atendi uma moça, que aos treze anos deu à luz numa calçada da rua Dino Bueno, anestesiada pela droga, sem entender que aquelas cólicas eram dores de parto.
Em São Paulo, a maioria das parturientes do crack são encaminhadas para o Hospital Maternidade Leonor Mendes de Barros, na zona leste, que procurou se adaptar para atender esse contingente que cresce a cada ano. Dez anos atrás, havia um ou dois partos de usuárias por ano; agora, há pelo menos um por semana.
Como tratar dos bebês, quando entram em crise de abstinência? Que destino dar a eles, quando a mãe mora numa cracolândia?
Por lei, a maternidade é obrigada a entrar em contato com o Conselho Tutelar, que pode retirar o poder familiar da mãe, caso a considere incapaz de cuidar do filho. O recém-nascido vai para uma creche, enquanto a Justiça procura localizar alguém da família que se interessem recebê-lo. Quando a tentativa falha, a criança é enviada para adoção.
Separar a mãe do filho é experiência traumática que costuma devolvê-la mais depressa para as ruas. Até a gravidez seguinte, durante a qual continuará a usar a droga. Elas assim o fazem não porque sejam mães desnaturadas, mas porque o crack é mais poderoso do que todas as vontades, mais forte até do que o instinto materno.
Exigir que sob o domínio do crack lhes sobre discernimento para a disciplina dos métodos contraceptivos, é arrogância dos ignorantes que desconhecem a ação farmacológica da cocaína; é tripudiar sobre a desgraça alheia.
Existem anticoncepcionais injetáveis administrados a cada três meses, ideais para esse tipo de situação. Como é insensato esperar que a usuária procure os Serviços de Saúde, não seria muito mais lógico levá-los até ela?
Antes que os defensores de ideologias medievais rotulem como eugênica essa solução, vamos deixar claro que não haveria necessidade de qualquer constrangimento, as dependentes aceitariam de bom grado a oferta do anticoncepcional. Elas não concebem filhos com o intuito de viver os mistérios da maternidade.
Dr. Drauzio Varella
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
Labirintite
Labirintite é um termo impróprio, mas comumente usado, para designar uma afecção que pode comprometer tanto o equilíbrio quanto a audição, porque afeta o labirinto, estrutura do ouvido interno constituída pela cóclea (responsável pela audição) e pelo vestíbulo (responsável pelo equilíbrio).
Processos inflamatórios, infecciosos e tumorais, doenças neurológicas, compressões mecânicas e alterações genéticas podem provocar crises de labirintopatias e vestibulopatias, entre elas a labirintite.
A labirintite se manifesta, em geral, depois dos 40, 50 anos, decorrente de alterações metabólicas e vestibulares. Níveis aumentados de colesterol, triglicérides e ácido úrico podem acarretar alterações dentro das artérias, que reduzem a quantidade de sangue circulando nas áreas do cérebro e do labirinto.
São considerados fatores de risco para a labirintite: hipoglicemia, diabetes, hipertensão, otites, uso de álcool, fumo, café e de certos medicamentos, entre eles, alguns antibióticos, anti-inflamatórios, estresse e ansiedade.
Sintomas
Tonturas e vertigens associadas ou não a náuseas, vômitos, sudorese, alterações gastrintestinais, perda de audição, desequilíbrio, zumbidos, audição diminuída são os sintomas característicos da labirintite.
Na vertigem rotatória clássica, a sensação é que o ambiente gira ao redor do corpo, ou que este roda em relação ao ambiente. Na tontura, a sensação é de desequilíbrio, instabilidade, de pisar no vazio, de queda.
A fase aguda da doença pode durar de minutos ou horas a dias conforme a intensidade da crise.
Diagnóstico
Avaliação clínica e o exame otoneurológico completo são muito importantes para estabelecer o diagnóstico da labirintite, especialmente o diagnóstico diferencial, haja vista que as seguintes enfermidades podem provocar sintomas bastante parecidos: hipoglicemia, diabetes, hipertensão, reumatismo, doença de Mèniére, esclerose múltipla, tumores no nervo auditivo, no cerebelo e em áreas do tronco cerebral, drogas ototóxicas, doenças imunológicas e a cinetose, também chamada de doença do movimento que não tem ligação com as doenças vestibulares ou do labirinto.
A tomografia computadorizada e a ressonância magnética, assim como os testes labirínticos, podem ser úteis para fins diagnósticos.
Tratamento
São vários os tipos de medicamentos que podem ser indicados no tratamento da labirintite:
* Vasodilatadores: facilitam a circulação sanguínea e melhoram o calibre dos vasos muitas vezes reduzido pelas placas de ateromas;
* Labirinto-supressores: suprimem a tontura pela ação no sistema nervoso;
* Anticonvulsivantes e antidepressivos (inibidores seletivos de recaptação da serotonina);
* Drogas que atuam sobre outros sintomas, suprimindo a náusea, o vômito, o mal-estar.
Uma vez estabelecida a causa e estabelecido o tratamento adequado, a tendência é a doença desaparecer.
Recomendações
Mudanças no estilo de vida são fundamentais para prevenir as crises de labirintite. Eis algumas sugestões:
* Evite ingerir álcool. Se beber, faça-o com muita moderação;
* Não fume;
* Controle os níveis de colesterol, triglicérides e a glicemia;
* Opte por uma dieta saudável que ajude a manter o peso adequado e equilibrado;
* Não deixe grandes intervalos entre uma refeição e outra;
* Pratique atividade física;
* Ingira bastante líquido;
* Recuse as bebidas gaseificadas que contêm quinino;
* Procure administrar, da melhor forma possível, as crises de ansiedade e o estresse;
* Importante: não dirija durante as crises ou sob o efeito de remédios para tratamento da labirintite.
Fonte: Drauzio Varella
Bulimia Nervosa
Em pacientes com bulimia, não é a magreza que chama a atenção. Às vezes, são mulheres de corpo escultural, que cuidam dele de forma obsessiva. Vivem em dieta. De repente, ingerem uma quantidade absurda de alimentos e depois vomitam para evitar o ganho de peso, tomam laxantes e diuréticos e fazem exercícios físicos até caírem extenuadas.
A diferença básica entre anoréticos e bulímicos é o estado de caquexia (extrema desnutrição) a que podem chegar pacientes com anorexia.
Sintomas
* Ingestão exagerada de alimentos em curtos períodos de tempo sem o aumento correspondente do peso corporal;
* Vômitos auto-induzidos por inversão dos movimentos peristálticos ou colocando o dedo na garganta;
* Uso de laxantes e diuréticos indiscriminadamente;
* Dietas severas intermediadas por repentinas perdas de controle que levam à ingestão compulsiva de alimentos;
* Distúrbios depressivos, de ansiedade, comportamento obsessivo compulsivo, auto-mutilação.
Causas
São as mesmas da anorexia. Entre elas destacam-se predisposição genética, pressão social e familiar e valorização do corpo magro como ideal máximo de beleza.
Recomendações
* Algumas profissões são consideradas de risco para a anorexia. Bailarinas, jóqueis, atletas olímpicos, precisam estar atentos para a pressão que sofrem para reduzir o peso corporal;
* A faixa etária está baixando nos casos de anorexia. A família precisa observar especialmente as meninas que disfarçam o emagrecimento usando roupas largas e soltas no corpo e se recusam a participar das refeições em casa;
* Às vezes, os familiares só se dão conta do que está acontecendo quando, por acaso, surpreendem a paciente com pouca roupa e vêem seu corpo esquelético, transformado em pele e osso. Nesse caso, é urgente procurar atendimento médico especializado;
* O ideal de beleza que a sociedade e os meios de comunicação impõem está associado à magreza absoluta. É preciso olhar para esses apelos com espírito critico e bom senso e não se deixar levar pela mensagem enganosa que possam expressar;
* Se o paciente anorético estiver correndo risco por causa da caquexia e dos distúrbios psiquiátricos deve ser internado num hospital para tratamento médico.
Tratamento
O tratamento da bulimia nervosa exige o acompanhamento de equipe multidisciplinar composta por médicos, psicólogos, nutricionistas. Medicamentos antidepressivos podem ser úteis, especialmente se ocorrerem distúrbios como depressão e ansiedade. O diagnóstico da doença nem sempre é fácil, porque os sintomas não são evidentes como os da anorexia.
Infelizmente, não se conhecem métodos eficazes para prevenir patologias como a bulimia e a anorexia. Seria necessário um empenho da sociedade na mudança de certos valores estéticos ligados ao culto do corpo e à magreza.
Fonte: Drauzio Varella
Lesões por Esforço Repetitivo
L.E.R. (Lesões por Esforço
Repetitivo) não é propriamente uma doença. É uma síndrome constituída por um
grupo de doenças – tendinite, tenossinovite, bursite, epicondilite, síndrome do
túnel do carpo, dedo em gatilho, síndrome do desfiladeiro torácico, síndrome do
pronador redondo, mialgias -, que afeta músculos, nervos e tendões dos membros
superiores principalmente, e sobrecarrega o sistema musculoesquelético. Esse
distúrbio provoca dor e inflamação e pode alterar a capacidade funcional da
região comprometida. A prevalência é maior no sexo feminino.
Também chamada de D.O.R.T. (Distúrbio Osteomuscular Relacionado
ao Trabalho), L.T.C. (Lesão por Trauma Cumulativo), A.M.E.R.T. (Afecções
Musculares Relacionadas ao Trabalho) ou síndrome dos movimentos repetitivos,
L.E.R. é causada por mecanismos de agressão, que vão desde esforços repetidos
continuadamente ou que exigem muita força na sua execução, até vibração,
postura inadequada e estresse. Tal associação de terminologias fez com que a
condição fosse entendida apenas como uma doença ocupacional, e que existem
profissionais expostos a maior risco: pessoas que trabalham com computadores,
em linhas de montagem e de produção ou operam britadeiras, assim como
digitadores, músicos, esportistas, pessoas que fazem trabalhos manuais, por
exemplo tricô e crochê.
Diagnóstico
O diagnóstico é basicamente clínico. O mais importante é
determinar a causa dos sintomas para eleger o tratamento adequado. Para tanto,
muitas vezes, é preciso recorrer a uma avaliação multidisciplinar.
Sintomas
Os principais sintomas são: dor nos membros superiores e nos
dedos, dificuldade para movimentá-los, formigamento, fadiga muscular, alteração
da temperatura e da sensibilidade, redução na amplitude do movimento,
inflamação.
É importante destacar que, na maioria das vezes, esses sintomas
estão relacionados com uma atividade inadequada não só dos membros superiores,
mas de todo o corpo, que se ressente, por exemplo, se houver compressão
mecânica de uma estrutura anatômica, ou se a pessoa ficar sentada diante do
computador ou tocando piano por oito, dez horas seguidas.
Tratamento
Nas crises agudas de dor, o tratamento inclui o uso de
anti-inflamatórios e repouso das estruturas musculoesqueléticas comprometidas.
Nas fases mais avançadas da síndrome, a aplicação de corticóides na área da
lesão ou por via oral, fisioterapia e intervenção cirúrgica são recursos
terapêuticos que devem ser considerados.
Os conhecimentos da ergonomia, ciência que estuda a melhor forma
de atingir e preservar o equilíbrio entre o homem, a máquina, as condições de
trabalho e o ambiente com o objetivo de assegurar eficiência e bem-estar do
trabalhador, têm-se mostrado muito úteis no tratamento e prevenção da L.E.R.
Recomendações
* Procure manter as costas eretas, apoiadas num encosto
confortável e os ombros relaxados enquanto estiver trabalhando sentado. Cuide
também para que os punhos não estejam dobrados. A cada hora, pelo menos,
levante-se, ande um pouco e faça alongamentos;
* Certifique-se de que a cadeira e/ou banco em que se senta para
trabalhar sejam adequados ao tipo de atividade que você exerce;
* Não imagine que L.E.R. é uma síndrome que acomete apenas as
pessoas que trabalham em determinadas funções. Quem usa o computador, por
exemplo, para o lazer durante horas a fio, também está sujeito a desenvolver o
distúrbio;
* Veja bem: qualquer região do corpo pode ser afetada por L.E.R.
desde que seja exposta a mecanismos de traumas contínuos. Portanto, a síndrome
pode manifestar-se em regiões do corpo como a coluna lombar, se a sobrecarga
ocorrer na coluna lombar ou no tendão do calcâneo (tendão de Aquiles), se a
pessoa caminha ou corre longas distâncias.
Fonte: Dr.Drauzio Varella
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